Renúncia de herança: como funciona e qual a diferença para cessão de direitos hereditários?
Renunciar não é escolher quem fica com a sua parte. Quando existe um beneficiário determinado, o ato costuma ser outro — cessão de direitos hereditários — com efeitos civis e tributários diferentes.
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Nem todo herdeiro deseja receber a herança. Pode haver razões familiares, patrimoniais, tributárias ou pessoais para abrir mão dela.
Mas existe uma diferença jurídica importante entre simplesmente renunciar à herança e transferir a posição hereditária para uma pessoa determinada. Ela aparece logo na primeira conversa, quase sempre na mesma frase: "quero abrir mão da minha parte para a minha irmã".
Essa frase costuma descrever dois atos ao mesmo tempo — e eles não são o mesmo ato.
RENÚNCIA — o herdeiro abdica da herança nos termos legais. Ele não escolhe o beneficiário: o destino da parte é definido pela lei.
CESSÃO DE DIREITOS HEREDITÁRIOS — o herdeiro transfere seus direitos a outra pessoa, gratuitamente ou mediante pagamento, conforme as regras aplicáveis.
A distinção é central para os efeitos sucessórios, civis e tributários. Quase todo erro sobre o tema nasce de tratar as duas operações como sinônimos.
O que é renúncia à herança?
É a manifestação formal pela qual o herdeiro rejeita o direito hereditário que lhe foi transmitido com a abertura da sucessão.
O Código Civil trabalha com uma sequência clara. Pelo art. 1.784, aberta a sucessão a herança se transmite desde logo aos herdeiros. Pelo art. 1.804, aceita a herança, essa transmissão se torna definitiva desde a abertura — e o parágrafo único acrescenta o outro lado: a transmissão tem-se por não verificada quando o herdeiro renuncia à herança.
O efeito, portanto, é retroativo. Quem renuncia é tratado como se nunca tivesse recebido aquela posição. Não é alguém que recebeu e depois passou adiante.
Preciso primeiro aceitar para depois renunciar?
Não é assim que a lei organiza o problema.
Com a morte, o direito hereditário já foi transmitido. O que o herdeiro faz em seguida é confirmar essa transmissão, aceitando, ou desfazê-la retroativamente, renunciando. Não existe uma etapa obrigatória de aceitação prévia para depois abrir mão.
A observação é útil porque muita gente acredita que precisa "assumir" a herança primeiro. Precisa, sim, é decidir dentro das formas legais — e antes de praticar atos que signifiquem aceitação.
Como a renúncia precisa ser feita?
O art. 1.806 do Código Civil é direto: a renúncia da herança deve constar expressamente de instrumento público ou termo judicial.
São, portanto, duas vias:
- escritura pública, lavrada em cartório de notas;
- termo judicial, nos autos do inventário.
Não há terceira forma. E não existe renúncia tácita: enquanto a aceitação pode ser expressa ou tácita, a renúncia só existe se for expressa e solene.
"Não quero nada da herança" vale como renúncia?
Não. E essa é uma das confusões mais frequentes.
DIZER À FAMÍLIA QUE NÃO QUER NADA ≠ RENÚNCIA JURÍDICA PERFEITA
Mensagem, conversa, áudio, acordo verbal entre irmãos: nada disso preenche a forma exigida pelo art. 1.806. Enquanto o ato formal não existe, a pessoa continua herdeira para todos os efeitos — inclusive para efeitos que ela não deseja, como figurar no inventário e responder pelas obrigações próprias dessa posição.
O inverso também importa: a pessoa que confiou na palavra dos demais pode descobrir, anos depois, que a partilha precisará ser refeita.
Preciso esperar o inventário abrir para renunciar?
A sucessão se abre com a morte, e é a partir daí que existe algo a renunciar. Antes disso não há herança: há expectativa, e a lei não admite a disposição de herança de pessoa viva.
Depois da abertura, a formalização pode acontecer por escritura pública mesmo que o inventário ainda não tenha começado, ou por termo dentro dele. O que não se pode é inverter a ordem — nem deixar para depois da partilha, quando os bens já foram individualizados e a discussão passa a ser outra.
Posso perder a chance de renunciar se começar a agir como herdeiro?
Pode, e esse é um dos pontos práticos mais relevantes do tema.
O art. 1.805 admite a aceitação tácita, que resulta de atos próprios da qualidade de herdeiro. Mas o próprio artigo delimita o que não conta:
- o § 1º exclui os atos oficiosos, como o funeral, os meramente conservatórios e os de administração e guarda provisória;
- o § 2º exclui a cessão gratuita, pura e simples, da herança aos demais co-herdeiros.
A distinção que importa é entre conservar e dispor. Pagar a conta de luz do imóvel do falecido, providenciar o funeral ou guardar documentos não significa aceitar. Vender um bem, receber valores como herdeiro ou praticar atos de disposição aponta para outro lado.
Não existe lista fechada. Existe critério — e ele deve ser aplicado à conduta concreta, antes de a decisão ser tomada.
Posso renunciar só a um imóvel ou a uma parte da herança?
Não. O art. 1.808 é categórico: não se pode aceitar ou renunciar a herança em parte, sob condição ou a termo.
A razão é estrutural. Pelo art. 1.791, a herança se defere como um todo unitário, e até a partilha o direito dos co-herdeiros é indivisível. Não existe, antes da partilha, "o imóvel que é meu": existe uma fração ideal sobre o conjunto.
Duas ressalvas legais, e apenas essas, aparecem nos parágrafos do art. 1.808: quem também é legatário pode aceitar o legado e renunciar à herança, ou o contrário; e quem foi chamado à mesma sucessão por títulos sucessórios diversos pode deliberar separadamente sobre cada quinhão. Nenhuma delas autoriza escolher bens.
Posso ficar com os bens e renunciar às dívidas?
Não. A sucessão não se divide entre ativo aceito e passivo recusado.
Mas o receio que motiva a pergunta merece resposta precisa, porque costuma ser exagerado. O art. 1.792 do Código Civil estabelece que o herdeiro não responde por encargos superiores às forças da herança, e o art. 1.997 repete a lógica: a herança responde pelas dívidas do falecido e, feita a partilha, cada herdeiro responde na proporção do que lhe coube.
Ou seja: herdar não transfere dívidas para o patrimônio pessoal. O que pode acontecer é a herança ser consumida pelo passivo — o que é diferente, e se apura no inventário.
E se aparecer outro bem depois da renúncia?
A renúncia continua produzindo efeitos, e alcança também o que apareceu depois.
O ponto foi decidido pelo Superior Tribunal de Justiça no REsp 1.855.689/DF, julgado pela Terceira Turma em 13 de maio de 2025, sob relatoria do Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva. A tese é a seguinte: a superveniência da descoberta de novos bens partilháveis, que ensejem sobrepartilha, não dá nova oportunidade ao herdeiro que renunciou à herança de optar pela aceitação ou renúncia desse patrimônio.
O tribunal partiu justamente da indivisibilidade do art. 1.808 e da irrevogabilidade do art. 1.812: se a renúncia se exerce por completo em relação à totalidade da herança, e se acaba por inteiro com o direito hereditário do renunciante, não há posição a ser reativada quando o art. 2.022 permite a sobrepartilha de bens de que se teve ciência depois.
RENUNCIOU À HERANÇA ≠ RENUNCIOU APENAS AO QUE ERA CONHECIDO NAQUELE DIA
Esse é, na prática, um dos maiores riscos da decisão tomada às pressas: o patrimônio conhecido no dia da renúncia pode não ser o patrimônio real.
Posso me arrepender e voltar atrás?
Em regra, não. O art. 1.812 declara irrevogáveis os atos de aceitação e de renúncia da herança.
A formulação vaga — "é difícil voltar atrás" — não descreve bem a regra. A irrevogabilidade significa que o arrependimento, por si só, não desfaz nada. Discutir o ato depois exige fundamento próprio e autônomo, como vício de consentimento ou defeito de forma, com todas as dificuldades de prova que isso implica.
Por isso o tema merece decisão informada, e não decisão rápida.
Se eu renunciar, quem recebe a minha parte?
Quem a lei indicar — não quem o renunciante indicaria.
O art. 1.810 trata disso na sucessão legítima: a parte do renunciante acresce à dos outros herdeiros da mesma classe e, sendo ele o único dessa classe, devolve-se aos da subsequente.
Dois exemplos tornam a regra concreta. Se três filhos herdam e um renuncia, a parte dele acresce à dos outros dois — não vai para os netos, nem para quem o renunciante preferisse. Se existe um único filho e ele renuncia, a classe dos descendentes se esvazia e a herança passa à classe seguinte, na ordem do art. 1.829.
Quem participa de cada classe, e em que condições o cônjuge ou companheiro concorre, é assunto do guia sobre herança sem testamento — e essa configuração muda completamente o resultado da renúncia.
Se eu renunciar, meus filhos herdam no meu lugar?
Esta é a maior armadilha do tema, e a resposta intuitiva está errada.
O art. 1.811 do Código Civil começa exatamente pela negativa: ninguém pode suceder, representando herdeiro renunciante. O direito de representação, que existe quando o herdeiro morreu antes do autor da herança, não se aplica a quem renunciou.
A consequência prática é a que quase ninguém antecipa: renunciar não beneficia os próprios filhos. A parte acresce aos demais herdeiros da mesma classe, na forma do art. 1.810.
O próprio art. 1.811 traz duas exceções, e só elas:
- se o renunciante for o único legítimo da sua classe;
- ou se todos os outros da mesma classe também renunciarem.
Nessas hipóteses, os filhos podem vir à sucessão — mas o artigo é preciso quanto ao modo: por direito próprio, e por cabeça. Não é representação. E "por cabeça" tem efeito concreto: os netos dividem entre si, em partes iguais, contando pessoas — de modo que um ramo com três filhos recebe mais do total do que um ramo com um filho só. Não é a divisão por estirpes a que a família costuma estar acostumada.
RENÚNCIA NÃO É UM ATALHO PARA PASSAR A HERANÇA AOS PRÓPRIOS FILHOS
Quando essa é a intenção real, o instrumento adequado é outro — e precisa ser desenhado como tal.
Renunciar e ser excluído da herança são a mesma coisa?
Não, e o contraste entre os dois institutos ilumina o ponto anterior.
A renúncia é ato voluntário do herdeiro. A exclusão decorre de causa legal — indignidade ou deserdação — e é imposta.
O tratamento dos descendentes é oposto nos dois casos. No art. 1.811, ninguém sucede representando o renunciante. Já no art. 1.816, são pessoais os efeitos da exclusão: os descendentes do herdeiro excluído sucedem, como se ele morto fosse.
Ou seja: o filho de quem foi excluído herda no lugar dele; o filho de quem renunciou, em regra, não. As hipóteses, os requisitos e os prazos da exclusão estão no guia sobre exclusão de herdeiro.
Posso renunciar em favor de um irmão?
Aqui a pergunta precisa ser devolvida antes de ser respondida.
Se a intenção é deixar de ser herdeiro, e o que acontecer com a parte depois disso for indiferente, trata-se de renúncia — e o destino será o do art. 1.810, que pode não coincidir com o desejado.
Se a intenção é que aquela pessoa específica receba, não se está diante de renúncia pura. Está-se diante de uma disposição: o herdeiro aceita a posição hereditária e transfere o que lhe cabe. Tecnicamente, uma cessão de direitos hereditários.
A expressão "renúncia translativa" circula no meio jurídico para descrever essa segunda situação. Ela é útil como rótulo, mas o que decide os efeitos não é o nome escolhido na conversa: é a estrutura do negócio praticado.
Há uma exceção legal que confirma a lógica. O art. 1.805, § 2º, diz que não importa aceitação a cessão gratuita, pura e simples, da herança, aos demais co-herdeiros — isto é, a todos eles, sem escolher ninguém. É o desenho que equivale, na prática, à renúncia. Basta que um beneficiário determinado seja destacado para que a natureza do ato mude.
Posso transferir minha parte sem receber nada?
Pode. O art. 1.793 permite que o direito à sucessão aberta, bem como o quinhão de que disponha o co-herdeiro, seja objeto de cessão por escritura pública — a título gratuito ou oneroso.
Cessão gratuita não é sinônimo de renúncia, ainda que o resultado econômico se pareça. Na renúncia, a transmissão tem-se por não verificada. Na cessão, ela se verificou: o herdeiro aceitou e dispôs. Isso muda os efeitos, e muda especialmente a análise tributária.
Posso vender meus direitos hereditários?
Pode, observadas três limitações que o Código Civil impõe e que costumam surpreender.
A primeira está no art. 1.793, § 2º: é ineficaz a cessão, pelo co-herdeiro, de seu direito hereditário sobre qualquer bem da herança considerado singularmente. Não se cede "o apartamento": cede-se fração do quinhão.
A segunda está no § 3º do mesmo artigo: é ineficaz a disposição de bem do acervo, por qualquer herdeiro, sem prévia autorização do juiz da sucessão, enquanto pendente a indivisibilidade. Sobre a alienação de bens do espólio, o guia de venda de bem em inventário trata do procedimento.
A terceira está nos arts. 1.794 e 1.795: o co-herdeiro não pode ceder sua quota a pessoa estranha à sucessão se outro co-herdeiro a quiser, tanto por tanto. Quem não foi comunicado pode, depositando o preço, haver para si a quota cedida a estranho, se requerer em até cento e oitenta dias.
Na cessão posso transferir apenas parte dos meus direitos?
Sim, e é aqui que a comparação com a renúncia fica mais nítida.
A renúncia é indivisível por força do art. 1.808. A cessão, não: pode ser universal ou parcial, alcançando fração do quinhão. Foi o que o STJ afirmou no REsp 2.225.451/SP, julgado pela Terceira Turma em 12 de maio de 2026, sob relatoria da Ministra Nancy Andrighi (Informativo 891), ao registrar que o acordo examinado não envolvia renúncia à herança, mas cessão de direitos hereditários — instituto de efeitos distintos e que pode ocorrer parcialmente.
"Parcial", porém, tem sentido técnico: é parte da fração hereditária, não um bem escolhido. A vedação do art. 1.793, § 2º, continua valendo.
RENÚNCIA: TUDO OU NADA — CESSÃO: PODE SER FRAÇÃO DO QUINHÃO, NUNCA UM BEM ESCOLHIDO
Até quando é possível ceder?
Da abertura da sucessão até a partilha.
Antes da abertura não há herança a ceder. Depois da partilha, os bens já foram individualizados e saíram do regime de indivisibilidade do art. 1.791 — a partir daí, o que existe é propriedade de cada herdeiro, e transferi-la é venda ou doação de bem certo, com disciplina própria.
É por isso que a decisão tem janela: adiar a conversa pode significar mudar o instrumento disponível.
Os herdeiros podem combinar uma divisão diferente?
Podem, quando o acordo é juridicamente estruturado.
No mesmo REsp 2.225.451/SP, o STJ fixou que é possível a partilha amigável com quinhões desiguais entre herdeiros maiores e capazes, desde que haja consenso e prévia cessão de direitos hereditários, realizada a partir da abertura da sucessão e antes da partilha.
Dois pontos do julgado merecem registro. O primeiro: a desigualdade entre os quinhões, por si só, não invalida a partilha amigável — o art. 2.017, que manda observar a maior igualdade possível, não impede o ajuste consensual precedido de cessão. O segundo: ao homologar, o juiz deve verificar a regularidade e a livre manifestação de vontade das partes, sem exigir equivalência matemática entre os quinhões, inexistentes vícios de consentimento ou prejuízo a terceiros.
Isso não é renúncia. É consenso com instrumento adequado — e a diferença aparece na hora do imposto.
Cessão gratuita e doação são a mesma coisa?
Não são o mesmo negócio, ainda que a aproximação econômica seja evidente e a consequência tributária possa ser semelhante.
A doação recai sobre bem determinado do patrimônio do doador. A cessão gratuita de direitos hereditários recai sobre posição em uma universalidade ainda indivisa, antes da partilha, e segue as regras dos arts. 1.793 a 1.795 — inclusive a preferência dos co-herdeiros.
Tratar os dois como sinônimos leva a erros de forma e de tributação.
Meu marido ou minha esposa precisa concordar com a renúncia?
Este é um ponto tecnicamente delicado, e a resposta honesta é que ele exige análise do caso.
Os dispositivos em jogo são dois. O art. 80, II, do Código Civil considera imóvel, para os efeitos legais, o direito à sucessão aberta. E o art. 1.647, I, exige autorização do outro cônjuge para alienar bens imóveis, exceto no regime da separação absoluta.
Na prática notarial, a exigência aparece com clareza na Resolução CNJ nº 35/2007, art. 17: os cônjuges dos herdeiros deverão comparecer ao ato de lavratura da escritura pública de inventário e partilha quando houver renúncia ou algum tipo de partilha que importe em transmissão, exceto se o casamento se der sob o regime da separação absoluta.
A discussão doutrinária sobre a natureza do ato existe — se a renúncia abdicativa é alienação ou recusa de aquisição —, mas ela não muda o que a pessoa encontrará no cartório. O regime de bens, a existência de cônjuge e o desenho do ato precisam ser verificados antes, e não no balcão.
Menor de idade pode renunciar à herança?
Não livremente, e a resposta não se resolve pela vontade dos pais.
O art. 1.691 do Código Civil impede que os pais alienem ou gravem de ônus real os imóveis dos filhos, e que contraiam em nome deles obrigações que ultrapassem os limites da simples administração, salvo por necessidade ou evidente interesse da prole, mediante prévia autorização do juiz. Renunciar a uma herança em nome de filho menor é ato de disposição, não de administração.
Some-se a isso o interesse de incapaz, que atrai a intervenção do Ministério Público. No inventário extrajudicial, a Resolução CNJ nº 35/2007 passou a admitir, no art. 12-A, escritura que inclua interessado menor ou incapaz, desde que o pagamento do quinhão ou da meação ocorra em parte ideal em cada um dos bens inventariados e haja manifestação favorável do Ministério Público.
Ou seja: existe caminho, mas ele é controlado. Não é uma decisão que a família toma sozinha.
Quem tem dívidas pode renunciar à herança?
Pode renunciar — mas a renúncia não funciona como blindagem, e é importante dizer isso com todas as letras.
O Código Civil tem regra específica para a hipótese. Não se trata de uma zona cinzenta a ser explorada: trata-se de situação que a lei já previu e resolveu em favor dos credores.
Credores podem aceitar a herança no lugar de quem renunciou?
Podem, nos termos do art. 1.813.
Quando o herdeiro prejudicar os seus credores, renunciando à herança, poderão eles, com autorização do juiz, aceitá-la em nome do renunciante. A habilitação dos credores se faz no prazo de trinta dias seguintes ao conhecimento do fato. E o § 2º define o desfecho: pagas as dívidas do renunciante, prevalece a renúncia quanto ao remanescente, que será devolvido aos demais herdeiros.
O mecanismo é cirúrgico. Ele não anula a renúncia por inteiro: satisfaz o crédito e deixa o restante seguir o destino que a renúncia determinou.
Renunciar é uma forma de evitar as dívidas do falecido?
Essa premissa costuma estar mal formulada.
Como visto, o art. 1.792 limita a responsabilidade do herdeiro às forças da herança, e o art. 1.821 assegura aos credores o pagamento das dívidas reconhecidas nos limites das forças da herança. Herdar não significa assumir dívidas com patrimônio próprio.
A decisão de renunciar por causa do passivo, portanto, deveria começar por um levantamento — do ativo e do passivo — e não por um receio genérico. Renunciar sem conhecer o patrimônio é abrir mão de um saldo que pode ser positivo, de forma irreversível. Como as dívidas do falecido são apuradas e até onde vai a responsabilidade de quem herda é o assunto do guia de dívidas no inventário.
Renunciar à herança gera imposto?
A resposta depende de qual ato foi efetivamente praticado, e é por isso que a distinção deste artigo não é acadêmica.
Na renúncia pura, a transmissão do falecido para o renunciante tem-se por não verificada (art. 1.804, parágrafo único). Não há um segundo negócio entre o renunciante e outra pessoa: a parte segue o caminho legal do art. 1.810. O fato gerador que interessa é o da transmissão causa mortis, em relação a quem efetivamente herda.
Quando existe beneficiário determinado, há dois momentos: a aquisição pelo herdeiro e a transferência dele para o cessionário. Em Santa Catarina, a Lei nº 13.136/2004 define como doação, para efeito do ITCMD, qualquer ato ou fato não oneroso que importe ou se resolva em transmissão de bens ou direitos, e o art. 2º, § 4º é explícito ao alcançar os bens que, na divisão do patrimônio comum, na partilha ou na adjudicação, forem atribuídos a um dos cônjuges, a um dos companheiros ou a qualquer herdeiro, acima da respectiva meação ou quinhão. O art. 5º, II, indica o contribuinte: o donatário ou cessionário, no caso de doação ou de cessão.
É essa a razão pela qual "renunciar em favor de alguém" e "renunciar" podem ter custos diferentes. Não se trata de calcular imposto aqui — trata-se de identificar corretamente a operação antes de assiná-la.
E a partilha desigual combinada entre os herdeiros?
Vale a mesma lógica.
O STJ validou a partilha amigável com quinhões desiguais entre maiores e capazes, mas exigiu a prévia cessão de direitos hereditários como estrutura do acordo. Se há transferência de posição hereditária entre herdeiros, existe um negócio a ser qualificado — e a apuração tributária desse negócio compete ao Fisco estadual.
Combinar a divisão sem desenhar o instrumento é o caminho mais curto para uma escritura recusada, ou para uma exigência fiscal posterior.
Posso renunciar dentro do processo de inventário?
Pode. É exatamente uma das duas formas do art. 1.806: o termo judicial, lavrado nos autos.
Na prática, isso significa manifestar a renúncia no processo, com a formalização adequada, e não simplesmente deixar de participar. Silêncio e ausência não produzem renúncia.
Posso renunciar em inventário feito em cartório?
Pode, pela via da escritura pública, também prevista no art. 1.806.
A Resolução CNJ nº 35/2007 organiza o procedimento extrajudicial e traz dois dispositivos diretamente ligados a este artigo: o já citado art. 17, sobre o comparecimento dos cônjuges quando houver renúncia ou partilha que importe transmissão; e o art. 16, que admite a promoção de inventário extrajudicial por cessionário de direitos hereditários, mesmo na hipótese de cessão de parte do acervo, desde que todos os herdeiros estejam presentes e concordes.
Se a via extrajudicial é ou não cabível no caso concreto é questão anterior, tratada no guia de inventário extrajudicial.
O que costuma ser reunido antes da decisão
Antes de um ato irreversível, costuma ser necessário conhecer a certidão de óbito, a estrutura familiar, o patrimônio e o passivo, a existência de testamento, o regime de bens, quem são os demais herdeiros, quais são os descendentes de quem pretende renunciar, a situação de eventuais credores e se o inventário já foi iniciado.
Não é burocracia. Cada um desses itens muda a resposta de alguma seção acima — inclusive a de quem receberá a parte e a de quanto se paga de imposto.
Renunciar à herança não é escolher quem ficará com a sua parte. É abdicar formalmente da posição hereditária, com efeitos gerais, indivisíveis e, em regra, irrevogáveis — alcançando inclusive bens que só apareçam depois. Como a decisão não pode ser corrigida por simples arrependimento, conhecer antes o patrimônio, o passivo e a estrutura de herdeiros é parte da decisão, não uma etapa opcional.
E se a intenção for beneficiar uma pessoa específica, a primeira pergunta é outra: estamos diante de uma renúncia ou de uma cessão de direitos hereditários? O guia de inventário organiza o procedimento em que tudo isso é formalizado, e a página de Sucessões descreve como o escritório conduz esse tipo de caso.
Perguntas frequentes
Posso abrir mão da herança?
Como faço para renunciar?
Posso renunciar só a um imóvel?
Posso renunciar às dívidas e ficar com os bens?
Posso renunciar em favor do meu irmão?
Qual a diferença entre renúncia e cessão?
Posso vender minha parte da herança?
Posso voltar atrás depois de renunciar?
A renúncia alcança bens descobertos depois?
Meus filhos herdam se eu renunciar?
Precisa de escritura pública?
Dá para renunciar no inventário em cartório?
Renúncia paga ITCMD?
Quem tem dívidas pode renunciar?
Fontes
- Código Civil, art. 1.784 — aberta a sucessão, a herança se transmite desde logo aos herdeiros
- Código Civil, art. 1.804 e parágrafo único — a transmissão tem-se por não verificada quando o herdeiro renuncia à herança
- Código Civil, art. 1.805 e §§ 1º e 2º — aceitação expressa e tácita; atos que não exprimem aceitação
- Código Civil, art. 1.806 — a renúncia deve constar expressamente de instrumento público ou termo judicial
- Código Civil, art. 1.808 e §§ — não se pode aceitar ou renunciar a herança em parte, sob condição ou a termo
- Código Civil, arts. 1.810 e 1.811 — destino da parte do renunciante e a vedação de suceder representando herdeiro renunciante
- Código Civil, art. 1.812 — são irrevogáveis os atos de aceitação ou de renúncia da herança
- Código Civil, art. 1.813 e §§ — credores prejudicados podem, com autorização do juiz, aceitar a herança em nome do renunciante, habilitando-se em trinta dias
- Código Civil, art. 1.816 — são pessoais os efeitos da exclusão; os descendentes do excluído sucedem como se ele morto fosse
- Código Civil, arts. 1.793 a 1.795 — cessão de direitos hereditários por escritura pública, ineficácia da cessão sobre bem singular e direito de preferência dos co-herdeiros
- Código Civil, arts. 1.791, 1.792 e 1.997 — indivisibilidade da herança até a partilha e limite da responsabilidade do herdeiro às forças da herança
- Código Civil, art. 80, II, e art. 1.647, I — o direito à sucessão aberta é imóvel para os efeitos legais; alienação de imóvel exige autorização do outro cônjuge, exceto na separação absoluta
- Código Civil, art. 1.691 — pais não podem alienar bens dos filhos nem contrair obrigações além da simples administração sem prévia autorização judicial
- Código Civil, arts. 2.015, 2.017 e 2.022 — partilha amigável entre capazes, maior igualdade possível e bens sujeitos a sobrepartilha
- Resolução CNJ nº 35/2007, arts. 12-A, 16 e 17 — inventário extrajudicial com interessado menor ou incapaz, cessionário de direitos hereditários e comparecimento dos cônjuges dos herdeiros havendo renúncia
- Lei estadual (SC) nº 13.136/2004, art. 2º, § 4º, e art. 5º, II — incidência do ITCMD sobre o que for atribuído acima da meação ou do quinhão; contribuinte é o donatário ou cessionário
- STJ, REsp 1.855.689/DF, Terceira Turma, rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 13/05/2025 — a descoberta de novos bens sujeitos a sobrepartilha não reabre ao renunciante a opção de aceitar
- STJ, REsp 2.225.451/SP, Terceira Turma, rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 12/05/2026 (Informativo 891) — partilha amigável com quinhões desiguais entre herdeiros maiores e capazes mediante prévia cessão de direitos hereditários

